Manipulador

Manipulador

Você disse tudo aquilo que eu queria ouvir

Eu continuei repetindo pra mim mesmo que daria certo

Você fingiu que tinha mudado,

E eu, que acreditei

Não mais, não mais

Parece que você não cansa dessa brincadeira

Será que todos são tão descartáveis assim?

Você teve pessoas boas, mas não soube tratá-las direito

Invés de protetor, o carcereiro

Sim, todos erram, seguem em frente, evoluem

Mas não você

Por que continua agindo como um garoto estúpido?

Dissimulado, calculista, hipócrita

O verdadeiro mestre das cordas

Seu jeito envolvente foi ofuscante

Mas tudo não passou de fake news

De tanto persistir no mesmo erro,

Eu me pergunto,

O que te faz gostar tanto do sabor do adeus?

Você distorce e inventa explicações para apaziguar a sua alma,

Ou isso não passa de um delírio?

Discursos bonitos são míopes e tem estrutura frágil

Que você mesmo continuou chutando

Agora tudo está ruindo

Como você pode dar algo que não tem?

Comprar fiado sempre deixa dívida

Que em algum momento será cobrada

Separe o lixo, apague a luz, economize água

Mas à sua volta tudo continua tóxico

Não se preocupe,

Você nunca mais me verá chorando

Durma sossegado,

Porque eu não vou morrer de decepção

Nessa pequena rebelião

Eu não ganhei, mas foi você quem perdeu.

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Rir é um ato de resistência

Nas correrias da rotina, deixei passar um tempo considerável sem escrever nada. Entretanto, hoje meu dia começou com a notícia da sua partida. Fiquei triste, abalado. Como em outras ocasiões, anotei que precisava registrar umas palavras a você mais tarde, porque sabia que era bem provável que deixaria isso passar, devido a todas as atribulações diárias. Eis que um bichinho pousou bem no seu nome, com asinhas no formato de coração e que gerou essa foto. Sabia que era hora de escrever novamente.

Eu nunca gostei muito da nomenclatura “humorista”, porque eu sou uma exceção à regra, onde eu dificilmente dou risada com eles. Ainda assim, você era um dos poucos que sempre me fizeram rir, motivo pelo qual acompanhei o seu trabalho e, consequentemente, virei fã. No meu mundinho particular e, na minha humilde opinião, você foi o melhor de todos. Eu acabei não me dando de presente assistir uma peça sua ao vivo. Mesmo assim, queria te dizer que não importa quantas vezes esteja passando algum dos seus filmes ou vídeos, eu sempre assistirei novamente. O que alimenta nossa alma nunca perderá a graça ou será excessivo.

Definitivamente, perdemos um ser iluminado, que fervilhava criatividade ao mesmo tempo que deixava um recado ou uma reflexão importante. Meus mais sinceros sentimentos à toda a sua família e ao Brasil, que perde todo o seu talento e que será privado de não poder ter mais toda essa fonte de energia e alegria em nossas vidas. Mesmo que, hoje, pela primeira vez, você tenha nos proporcionado lágrimas, tenha a certeza de que milhões de sorrisos serão carregados de você por muito tempo.

A minha gratidão eterna por possibilitar momentos de luz aos problemas e, principalmente, na situação atual do mundo. Teremos coragem de seguir em frente em sua honra. Rir é, e continuará sendo, a nossa resistência.

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2020: surtos, verbos e contradições

Outro dia, assistindo a um programa, saiu uma pesquisa onde os brasileiros elegeram “cuidado” como a palavra do ano. Diferente de um substantivo, ou talvez até de um adjetivo, eu acho que a palavra do ano deveria ser um verbo mesmo. Verbo é movimento, é fazer acontecer. Para mim, a palavra que resume com maestria é “reavaliar”. Esse texto está cheio de contradições, afinal ele é um reflexo fidedigno do que 2020 representou.

Esse ano foi o mais difícil desde que eu me entendo por gente. E, segundo esse mesmo programa que citei anteriormente, o mais difícil do século. Parabéns, 2020, seu cretino.

Outro fato é que não existe experiência 100% negativa, então sim, ele também trouxe algumas coisas boas. Não irei estimular a felicidade tóxica do movimento gratiluz, porque já enchi o saco dele já faz tempo também.

No início da pandemia, escrevi um texto sobre o tempo e como ele está diretamente ligado a reavaliar. O que antes a gente achava que não tinha tempo para fazer, era jogado para baixo do tapete, para ser resolvido mais tarde. Na velocidade da luz, 2020 gargalhou e vomitou tudo isso na nossa cara, igual à menina endemoniada do Exorcista. De carona com esse jato verde, teve a transformação digital e a reavaliação da nossa relação com o trabalho.

Muita gente perdeu o emprego. Muita gente trocou de emprego. Muita gente passou a fazer home office. Muita gente achou que não seria possível. Muitos chefes acharam que perderiam o controle e a produtividade. Muitas reuniões foram substituídas por um e-mail. Muitas continuaram acontecendo remotamente por vídeo. Muita gente teve problemas com a câmera. Muita gente teve problema com o microfone. Muita gente teve problema com a internet. Muita gente perguntou “estão vendo a minha tela?”. Muita gente trabalhou bem mais do que presencialmente. Muita gente passou a ter mais qualidade de vida. Muita gente passou a aproveitar mais a família. Muita gente quis virar monge por causa dela. Muita gente já tem certeza de que o retorno pode ou precisará ser com jornada intercalada. Muita gente normalizou o moletom e a brusinha da faxina como uniforme. Muita gente já fez a reavaliação da sua vida profissional frente à pessoal.

Assim, replicamos essa tendência para todas as demais relações afetivas. Reavaliações foram feitas de cônjuges, namorados, família e amigos. A contradição está novamente presente aqui, onde passamos a ter um relacionamento mais próximo, mesmo estando mais longe. Percebo que, de uma forma natural e espontânea, esse ano trouxe à tona quem valia a pena e quem já não fazia sentido continuar conosco. Na mesma proporção em que laços foram estreitados, eles também foram desatados. E tá tudo bem. Já não somos mais adolescentes carentes de aceitação e de quantidade de pessoas que nos amam. Adulto gosta de qualidade (e boleto pago, porque né?!). Namaria já disse: “ao menor sinal de desinteresse, retribua, suma”. Sim, tivemos mais tempo, mas para certas coisas não, e já não fazemos mais questão de ter também. Beijo, bênção.

Na loteria pandêmica, eu gritei bingo várias vezes: surtei, briguei com várias pessoas, chorei, raspei a cabeça, dei caminhada em volta do prédio, falei que estava com a câmera desativada pra melhorar a conexão (quando na verdade eu tava parecendo o náufrago de pijama), lavei sacolas, tentei fazer exercícios em casa e peguei no sono, dialoguei com o molho de tomate no supermercado na frente de outras pessoas, … (Conta os seus nos comentários? 😉)

Os meus desejos para o novo ano que se inicia permanecem sendo verbos: superar, sobreviver, curar, vencer. Sigam constantes, sigam em movimento. 2020 acabou, mas a luta continua, menos por papel higiênico. Esse ano foi uma merda, mas nunca foi pra tanto.

Ainda vamos rir de tudo isso, fazendo juntos uma fogueira de máscaras, ok? Vai dar tudo certo.

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Carta aberta aos profissionais de RH frente à pandemia

Prezados profissionais de RH, empresas de recrutamento, headhunters, e demais responsáveis por processos seletivos,

Essa é uma carta rápida transmitir ou reforçar alguns aprendizados neste período. Caso a sua empresa, ou você, se identifique com essas situações, infelizmente você não será selecionado para dar sequência no processo de revolução digital.

Estamos no meio de uma pandemia mundial. Não peçam para os candidatos fazerem etapas presenciais, sendo que existem inúmeras de ferramentas online (e gratuitas) para entrevistas e processos remotos.

Outro ponto importante que gostaria de frisar é a otimização do tempo. Quando vocês pedem para alguém se deslocar só para repassar maiores informações pertinentes à vaga, como faixa salarial, alinhamento de expectativas e demais benefícios, você está perdendo o seu tempo, o da empresa e, óbvio, do candidato. Como diz aquela famosa frase: “tempo é dinheiro”, isso gera gastos que oneram para ambas partes, sem qualquer tipo de motivo plausível para tal. Informações técnicas podem ser repassadas facilmente com uma conversa de vídeo, e-mail ou mensagem de WhatsApp. Ninguém quer perder tempo à toa, muito menos nesse período de isolamento.

Coincidentemente, ou não, eu recebi 3 contatos de empresas de segmentos diferentes nesse período: uma de ensino EAD, uma de marketing digital e uma de assessoria de negócios. Todos os três são notoriamente focados exclusivamente em produtos e serviços que funcionam à distância, ou têm uma grande possibilidade de ser. Nenhuma delas sequer propôs que o processo fosse feito remoto, exigindo que a entrevista fosse presencial, curiosamente.

Isso nos leva ao terceiro ponto: os profissionais de RH são os cartões de visita das empresas. O primeiro pensamento que me passa pela cabeça nesses momentos é de que a empresa não está preocupada com o seu bem mais precioso: as pessoas. Aí você já se pergunta duzentas vezes se vai realmente querer trabalhar numa empresa com esse tipo de posicionamento. Qualquer empresa é feita de pessoas. Se são elas que vão fazer a empresa crescer e prosperar, por que o seu negócio ainda está preocupado só com o lucro?

Gostaria, encarecidamente, de pedir a todos vocês, profissionais de RH ou responsáveis por recrutamento e seleção que, quando vocês tiverem qualquer dúvida, todas as respostas ficarão fáceis se vocês lembrarem do significado de RH: recursos HUMANOS.

Grande abraço,

Renan

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Quanto tempo cabe na palavra “tempo”?

É precisamente 09:04 de um domingo. Estou aqui de pijama, óculos, cabelos desgrenhados em frente a um computador no meu escritório improvisado na mesa de jantar. A ergonomia mandou um “oi, sumido!”, a propósito. Essa é a minha primeira vez escrevendo no LinkedIn, escrevendo no LinkedIn, mas esse texto é um que eu já queria ter escrito há mais tempo e acho que faltava exatamente a oportunidade ideal para isso. Apesar de estar super em alta palavras como pandemia, home-office e desemprego, a maior delas por trás de tudo isso é “tempo”.

O covid-19 nos trouxe uma cascata de reavaliações. Engraçado como algo relativamente simples e, aparentemente, insignificante desestabilizou várias certezas e incertezas. Eu tinha o hábito de dizer: “Nossa, onde trabalho home-office não é uma possibilidade” em todas as minhas experiências profissionais. Cá estou, prova viva que de que tive que morder a minha língua sobre isso. Grande parte disso, confesso, por uma mentalidade que deixei que fosse implantada pelos meus gestores até então.

Uma das maiores desculpas que sempre ouvia era: “Não gostam muito de home-office aqui”. Uma forma mais suave de dizer que não é possível controlar os colaboradores. Eu me teletransporto para o ensino fundamental, com 8 anos, nesses momentos. Gente, somos todos adultos e sabemos das nossas responsabilidades. Se não entregarmos, não receberemos a contrapartida do salário, é simples assim.

Além de nos mostrar que vários trabalhos podem ser realizados de casa, vide a minha mãe que trabalha mais de 30 anos na mesma empresa e nunca sequer cogitou essa possibilidade, a pandemia também está nos mostrando que isso é tão eficaz, se não até mais, que o presencial. Eu já ouvi de vários amigos que estão trabalhando mais do que normalmente estariam. Em alguns casos, porque os gestores estão passando mais trabalho por medo de que a produtividade não seja tão grande quanto antes, ou porque justamente querem mostrar trabalho para eventualmente não entrarem nas estatísticas dos desempregados. Tudo que não está em equilíbrio é prejudicial, lembrem-se disso.

Em grande parte das empresas que já trabalhei, os executivos levavam as suas HP 12C para absolutamente todas as reuniões que participavam. Infelizmente, esse é um comportamento que se comprova com o incrível vídeo do João Pacífico publicado há alguns dias, onde os colaboradores, pra não dizer tudo, são vistos apenas como cifrões por muitas empresas. Apesar de ter plena consciência que há questões intangíveis, justamente por trabalhar com marketing e publicidade, vou trazer uns dados com números para vocês, HPlovers.

Em 2015, a Suécia, país referência mundial em direitos trabalhistas e bem-estar da população, resolveu testar a carga horária reduzida de 6h diárias, sem redução de salário. Um ano depois, os resultados apareceram: aumento de 100% da receita das empresas, redução de faltas, maior produtividade e melhora até mesmo na saúde dos empregados.

Já na Nova Zelândia, recentemente foi feito um experimento com um cenário um pouco diferente, 8h diárias, porém somente 4 dias por semana, durante 2 meses. O resultado disso foi que a diminuição de horas não impactou no resultado financeiro do período. Além disso, 78% dos funcionários disseram ter tido mais sucesso no equilíbrio cotidiano (melhora de 25% em percentual anterior) e redução de 7% no nível geral de estresse, sem prejuízo da produtividade.

Não tenho tempo. Não tenho tempo. Não tenho tempo. Quantas vezes a gente já repetiu isso em função do trabalho? Nós precisamos dele para sobreviver, claro, mas até que ponto vale a pena dedicar todo esse montante de vida para algo que não nos faz feliz?

Lembro de ter assistido um comercial do Itaú em 2016 que foi um dos melhores que já vi. Resgatei ele para escrever esse texto e me emocionei assistindo novamente. Ele permanece extremamente atual e nos dá um tapa na cara sobre o que citei no início do texto: reavaliações.

Agora, mais do que nunca, podemos ser os donos do nosso tempo. Aproveite, reflita, readéque, faça valer.

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Ex-amigo

Outro dia no trabalho fui contar uma história e usei o termo “ex-amigo”. Alguns colegas acharam estranho e outros concordaram. O fato é que para mim, sim, existe ex-amigo e existem inúmeros motivos para isso acontecer. Como você lida com isso, é um problema seu, claro, e também não diz respeito ao que os outros acham ou vão achar disso. Mesmo assim, compartilho aqui algumas notas sobre essas pessoas que passaram a integrar essa categoria. Sim, é no plural mesmo.

Um dos grandes motivos é a troca de rumos. A vida dá muitas voltas e nos faz ir para caminhos muitos diferentes. É nesses momentos que chegamos em cruzamentos que alguns ficam para trás, ou resolvem ir para a direção totalmente oposta à sua. Seja por escolhas próprias, suas ou por já não dividir mais os mesmos valores de antes. São escolhas e ninguém pode fazer as nossas por nós mesmos.

Relacionamentos são fatores-chaves para uma amizade. Aqui é bem fácil de identificar, basta observar o seu amigo (a) começar a namorar. Em muitos casos, os amigos acabam sendo chutados para escanteio, porque agora surgiu um novo motivo pra ele (a) viver. Muitas pessoas parecem que adquirem labirintite, porque perdem a total noção de equilíbrio, me parece. Invés de tentar manter a balança em simetria, acaba ficando 10% do tempo, ou menos, para você. E adivinha para quem eles virão correndo quando o relacionamento acabar? Para os 10% trouxas que somos nós para aceitar esses ingratos de braços abertos.

Interesse, ou melhor: ah, esqueci que só existo quando você precisa de alguma coisa. Infelizmente, a gente não percebe logo quando está em uma amizade abusiva. Você acredita nas pessoas e fica com uma cegueira momentânea, até que começa a juntar pequenos detalhes que passam despercebidos, mas que, olhando numa visão macro, você tem a certeza absoluta que é puro interesse. Você só serve quando convém, quando você tem coisas a oferecer. Engraçado que a contrapartida raramente acontece, isso quando acontece. O lado bom é que eles mesmo somem quando já sugaram tudo o que podiam de você, ou quando você já não tem mais o mesmo status de antes. Interesseiros precisam ser eliminados logo de início como aquelas ervas-daninhas que infestam a sua horta, pra não se tornarem cada vez mais nocivos.

Prioridades. Você tenta marcar coisas, mas a pessoa sempre está ocupada ou sem tempo. Demora pra responder e, quando responde, sempre são respostas curtas, quase monossílabos que não dizem muita coisa. Na verdade, dizem muito: você não é uma prioridade para o seu amigo (a). O mesmo se aplica quando é sempre você que tem que acionar a pessoa para ser lembrado. Aí você tem que ouvir que a pessoa não se manifesta muito, mas que pensa em você. Ah, me poupa né?! Quem se importa, tá junto ou se faz presente de alguma forma. Mandar uma bobagem por Whats, já é uma singela forma de você estar lá, mesmo sem estar. Já pode entregar o voucher para a categoria de ex-amigo. Já estou quase carregando um daqueles rolos de senha pra distribuir por aí. Sério, por que eu deveria fazer questão, se os outros também não fazem? Quem quer, dá um jeito e quem não quer, arranja uma desculpa. Frase pra vida.

Talvez um dos piores deles seja esse: quebra de confiança. Pensa só, você convive por anos com um amigo, conta um monte de segredos, divide aflições, medos, insanidades, vergonhas e etc. E acontece algo, ou você acaba descobrindo, que a pessoa usou as confissões e fraquezas contra você para te denegrir. É de uma mesquinhez e frieza tão absurdos que o seu coração se despedaça na mesma hora. Sei bem como é. Toda aquela admiração e história que foi construída é como um espelho que foi espatifado. Você até perdoa, tenta esquecer e até cola os cacos. Nunca mais vai ser a mesma coisa. Por melhor que seja a cola, a rachadura sempre ficará lá para te lembrar o que aconteceu.

Chame de infantil, chame do que quiser, mas eu bloqueio mesmo. Não estou nem aí pra sua opinião. Silenciar só pra não ver mais o que a pessoa está fazendo ou como ela está? Não, obrigado. Não sou blogueirinho, instagramer ou digital influencer. Então números e quantidades nunca fizeram muita diferença pra mim. Sempre preferi qualidade mesmo e como não consigo mais ter uma amizade do mesmo nível, simplesmente não quero mais. Manter o contato para quando um dia precisar, também acho de um egocentrismo e calculismo sem tamanho. Se você não tem problema com isso, tudo bem, siga em frente. Comigo não funciona assim.

Você pode pensar que esses não eram amigos de verdade e pode até ser. Eles também podem ter escolhido deixar de ser amigos de verdade nesse meio tempo. As pessoas mudam, simples assim. Amigo mesmo, na essência da palavra, é aquele que você vai poder contar sempre. Se não é assim, não é amigo, é conhecido.

Como eu citei antes, tudo são escolhas. Eu escolhi não ser obrigado a ter amigos de aparência ou pra encher redes sociais. Aos amigos que se tornam ex, agradeço o que foi legal e valeu a pena. Pra todo o resto, peço licença, entrego o ticket e peço pra sair da minha vida. Boa viagem!

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Zoológico

Como aquele cachorrinho

Perdido na estrada

Foi a sua cara coitadinho

Eu deveria ter visto

Que a sua barriga já estava bem cheia

De tudo que caiu na sua teia

Da boa vontade de quem te alimentou

Ou melhor, dos trouxas que você enganou

É, eu pude ter sido mais uma mosca

E isso não muda o que você representa

Dizem que é lobo em pele de cordeiro

Mas é um abutre, o verdadeiro lixeiro

Porque é só isso que vai ter: carcaça

Para toda essa sua carapaça

De nada adianta ser o pavão que gargalha

Quando só se vive de migalha

Mesmo com aquele celular na mão,

E um banquete à disposição,

O que te sobra, quando a jaula é trancada

E os turistas vão embora?

Eu posso ter sido aquele bicho de estimação

Que você acaricia e depois já a injeção

Mas adivinha só,

Tenho mestrado, doutorado

Contra essa raça, já tô vacinado

Pode fazer miau,

Porque nesse zoológico, eu sou o dono

E você, é só mais um animal.

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Oceano

O céu escuro parece já me conhecer

Esconda-se, eles dizem

Fuja, eles gritam

Porque nós não queremos as suas cores turvas

E ninguém vai querer se banhar na sua maré

Por vocês, aprendi a ter vergonha das minhas cicatrizes

Por todas essas suas palavras

Que continuarei seguindo em frente

Minha cabeça permanecerá acima da água

É difícil não perder o ar,

Não há como saber o que ainda está por vir

E eu posso esperar você vir me resgatar,

Mas antes disso, eu mesmo serei meu próprio

Colete salva-vidas

Toda vez que quiserem me jogar contra as pedras,

Ou me puxar para o fundo,

Eu serei o tsunami, e irei leva-los pra longe

Quando a chuva de desafios tocar a minha pele,

Abrirei os braços e deixarei que me encharque

Eu não quero menos, eu não quero mais

Só sei que não há nada que eu não mereça

Nesse barco, há sim, lugar para todos nós

Depois de passar

Por todas essas tempestades,

Contemplarei o sol

Porque já somos marinheiros

Tatuados sem tinta

Nossas marcas são lembretes

Do que nós somos

E do quão longe chegamos

Apesar de cansativo,

Continuarei nadando

Eu consigo, eu sou corajoso

Eu sou quem eu deveria ser,

Serei mestre dos mares

Prepare-se, porque estou chegando

Remarei no ritmo que eu quiser

Meu corpo será o meu leme

Minha mente será o meu farol

Não pedirei desculpas por ser eu mesmo

Goste você ou não,

Este sou eu

Eu sou oceano.

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Proteção de elevador

Quem já morou em prédio, já usou, ou pelo menos já ouviu falar da tal da proteção de elevador. Para quem não conhece, ela é uma simples capa que serve para forrar a parte interna e assim evitar danos ao mesmo em uma situação de mudança, em que é necessário transportar muitas coisas por ele. O que eu não tinha percebido, até então, é que ela representa um rito de passagem, muito maior do que a sua finalidade original.

A gente costuma usar quando está chegando e quando está partindo. É um mix de muitos sentimentos que por vezes são iguais, indiferente de qual desses momentos seja o seu.

Para quem passa a ingressar o condomínio, pode ser uma fuga, uma oportunidade de recomeçar. Tudo é uma fonte de novidades: novos vizinhos, novas regras, um novo emprego, um novo amor. Toda vez que eu vejo que a proteção foi colocada, fico com muita vontade de esperar essa nova pessoa aparecer para recebe-la com um grande abraço e os meus mais sinceros desejos de boas-vindas. Até já quis fazer como nos filmes que os novos vizinhos são recebidos com pães e bolos caseiros, mas acho que aí já seria um pouco demais. Eu acharia o máximo, e confesso que ainda tenho esperança de que um dia isso ainda aconteça. Na maioria das vezes, a chegada costuma ser carregada, além de toda a mudança, é de expectativas de que tudo dê certo e que seja um lugar legal para se morar.

Para quem está partindo, é o momento de ver tudo o que você conquistou e tentar fazer tudo aquilo caber em um caminhão. É o fechamento de um capítulo que pode ter sido muito bom, como pode ser novamente uma fuga, uma oportunidade para recomeçar. É carregar, além da mudança, as boas lembranças e momentos alegres que você viveu ali. É ter a oportunidade de deixar aqueles tristes trancados lá, ou jogá-los fora, como aquelas coisas que você guardou desnecessariamente.

A proteção de elevador, se a gente reparar bem, é para proteger o que fica dentro e não ele em si. Funciona igual ao nosso coração. Tudo aquilo que a gente já passou serve para forrar o que temos de mais precioso. Para quem tá chegando, é a oportunidade para cicatrizar, ter possibilidades, recomeçar. Para quem tá partindo, é a oportunidade de fugir, lembrar, jogar fora o que virou tralha.

Reconhecer quando está na hora de coloca-la ou retira-la é mais um processo de mudança que leva tempo. Não precisa se apressar, o único síndico e morador desse prédio é você, então vai aos pouquinhos que tudo se ajeita.

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Caminho de pedras soltas

Quem nunca passou pela desastrosa tarefa de ter que pisar em pedras suspeitas durante uma chuva? E o pior, achar que está colocando o pé na certa, quando, na verdade, era justamente essa que levanta aquela água podre que suja toda a sua calça? Pois é, cheguei à conclusão que crescer é exatamente a mesma coisa. Calma, apesar que parecer uma armadilha, não é bem assim.

Passei por um grupo de adolescentes outro dia que falavam sobre fulana de tal que estava megamoderna com suas roupas e que precisavam comprar novas para que ela voltasse a falar com elas. Definitivamente, foi um daqueles momentos que agradeci por já ter superado. Apesar de não ter muito disso do lado masculino, não é assim tão diferente. Uma fase bem difícil essa quando nada a nosso respeito está bom e tudo o que diz respeito aos outros é melhor. Espera, mas tô falando disso lá atrás, ou de agora? Bem, caro leitor, caso esteja acontecendo com você e já passou da casa dos 25, está na hora de se resolver.

Já quis me inscrever em clube de futebol. Já quis que a minha voz fosse diferente. Já quis ter mais altura. Já quis ter um cabelo diferente. Já quis ter dentes mais brancos. Já quis ter um carro. Já quis ser mais extrovertido. Já quis ter muito mais do que já tenho. Desejos infindáveis, mas junto a maturidade vem umas perguntas bem importantes: eu realmente quero isso, ou eu preciso disso porque os outros acham que isso é melhor pra mim? Eu realmente devo ser assim para ser aceito? A maturidade grita escandalosamente em silêncio: “Foda-se”.

Eu tive uma ex-colega de trabalho que estava tendo problemas com a sua chatice. Veja bem, não que ela fosse chata com toda a carga da palavra. Esse é o termo mais fácil, que acabaram definindo-a por ela ser exigente, meticulosa. “Todo mundo me acha uma chata”, ela dizia. Eu respondi a ela que abraçasse a sua chatice. Simples assim. Ela ficou atordoada com a minha fala, mas é isso mesmo. Ou a gente faz algo para mudar, porque NÓS MESMOS achamos que isso é necessário, ou então nos aceitamos. As pessoas também têm que gostar da gente pelo que somos, e não pelo que podemos nos tornar. Isso faz parte da nossa personalidade. É isso que nos diferencia, nos torna únicos, completamente incompletos.

Talvez tudo esteja intrinsicamente conectado, mas quando mais estive de bem comigo mesmo, foi quando mais elogios recebi. Justamente aquilo que mais odiava a meu respeito, acabou sendo aquilo pelo qual fui reconhecido, de maneira positiva. Até já disseram que queriam ser assim. Uma das situações é que sempre fui atrelado ao termo “grosso”, porque tenho a mania de falar a verdade. Resolvi ficar calado, lutando arduamente contra o meu perfil. As pessoas começaram a reparar e me disseram que eu já não era mais como antes, que estava faltando algo. Com o passar do tempo, acabei sendo chamado de “verdadeiro”. É óbvio que isso não serviu para todos, mas só de ter gente que reconheceu isso, já provou que não era algo que eu queria, mas que queriam que eu fosse. Também sempre me achei bem mediano de aparência, sempre vendo os outros caras se darem muito melhor do que eu. Até o dia em que me disseram que tinham o sonho de ter a cor exatamente do meu cabelo, ou que com os meus olhos fariam um estrago nos corações alheios. Curioso, não?

Apesar de ter pessoas importantes para te auxiliar nesse caminho, também vão ter aquelas que se revelarão como a água lamacenta. Isso faz parte. Com o passar dos anos, você vai aprender a selecionar as pedras que tem um alicerce firme e impermeável. As demais vão ficar pelo caminho mesmo, só absorvendo cada vez mais sujeira. Por essas você vai passar longe, pular por cima, fazer uma curva. Que fiquem lá, vou seguir o meu rumo.

Não tem jeito, amadurecer é uma trajetória que mesmo com todo apoio que puder ter, você vai ter que trilhar sozinho. É você que vai pisar nas pedras soltas, vai se sujar, vai se estressar, vai reclamar, vai xingar até a quinta geração de quem fez a calçada. Depois, você vai chegar em casa e vai lavar. Quando acontecer de novo, você já vai estar mais preparado. Já vai ter experiência para saber em quais pisar. E, mesmo que acabe se sujando de novo, você vai pensar “ah, que saco”, e tudo bem, vai pra máquina de novo.

Crescer é isso. Se importar cada vez menos com as sujeirinhas que vão aparecendo, até chegar o momento em que elas já nem estarão mais lá, seja por ter aprendido a desviar das pedras que são cilada, ou porque depois de se sujar, é só se limpar mesmo.

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