2020: surtos, verbos e contradições

Outro dia, assistindo a um programa, saiu uma pesquisa onde os brasileiros elegeram “cuidado” como a palavra do ano. Diferente de um substantivo, ou talvez até de um adjetivo, eu acho que a palavra do ano deveria ser um verbo mesmo. Verbo é movimento, é fazer acontecer. Para mim, a palavra que resume com maestria é “reavaliar”. Esse texto está cheio de contradições, afinal ele é um reflexo fidedigno do que 2020 representou.

Esse ano foi o mais difícil desde que eu me entendo por gente. E, segundo esse mesmo programa que citei anteriormente, o mais difícil do século. Parabéns, 2020, seu cretino.

Outro fato é que não existe experiência 100% negativa, então sim, ele também trouxe algumas coisas boas. Não irei estimular a felicidade tóxica do movimento gratiluz, porque já enchi o saco dele já faz tempo também.

No início da pandemia, escrevi um texto sobre o tempo e como ele está diretamente ligado a reavaliar. O que antes a gente achava que não tinha tempo para fazer, era jogado para baixo do tapete, para ser resolvido mais tarde. Na velocidade da luz, 2020 gargalhou e vomitou tudo isso na nossa cara, igual à menina endemoniada do Exorcista. De carona com esse jato verde, teve a transformação digital e a reavaliação da nossa relação com o trabalho.

Muita gente perdeu o emprego. Muita gente trocou de emprego. Muita gente passou a fazer home office. Muita gente achou que não seria possível. Muitos chefes acharam que perderiam o controle e a produtividade. Muitas reuniões foram substituídas por um e-mail. Muitas continuaram acontecendo remotamente por vídeo. Muita gente teve problemas com a câmera. Muita gente teve problema com o microfone. Muita gente teve problema com a internet. Muita gente perguntou “estão vendo a minha tela?”. Muita gente trabalhou bem mais do que presencialmente. Muita gente passou a ter mais qualidade de vida. Muita gente passou a aproveitar mais a família. Muita gente quis virar monge por causa dela. Muita gente já tem certeza de que o retorno pode ou precisará ser com jornada intercalada. Muita gente normalizou o moletom e a brusinha da faxina como uniforme. Muita gente já fez a reavaliação da sua vida profissional frente à pessoal.

Assim, replicamos essa tendência para todas as demais relações afetivas. Reavaliações foram feitas de cônjuges, namorados, família e amigos. A contradição está novamente presente aqui, onde passamos a ter um relacionamento mais próximo, mesmo estando mais longe. Percebo que, de uma forma natural e espontânea, esse ano trouxe à tona quem valia a pena e quem já não fazia sentido continuar conosco. Na mesma proporção em que laços foram estreitados, eles também foram desatados. E tá tudo bem. Já não somos mais adolescentes carentes de aceitação e de quantidade de pessoas que nos amam. Adulto gosta de qualidade (e boleto pago, porque né?!). Namaria já disse: “ao menor sinal de desinteresse, retribua, suma”. Sim, tivemos mais tempo, mas para certas coisas não, e já não fazemos mais questão de ter também. Beijo, bênção.

Na loteria pandêmica, eu gritei bingo várias vezes: surtei, briguei com várias pessoas, chorei, raspei a cabeça, dei caminhada em volta do prédio, falei que estava com a câmera desativada pra melhorar a conexão (quando na verdade eu tava parecendo o náufrago de pijama), lavei sacolas, tentei fazer exercícios em casa e peguei no sono, dialoguei com o molho de tomate no supermercado na frente de outras pessoas, … (Conta os seus nos comentários? 😉)

Os meus desejos para o novo ano que se inicia permanecem sendo verbos: superar, sobreviver, curar, vencer. Sigam constantes, sigam em movimento. 2020 acabou, mas a luta continua, menos por papel higiênico. Esse ano foi uma merda, mas nunca foi pra tanto.

Ainda vamos rir de tudo isso, fazendo juntos uma fogueira de máscaras, ok? Vai dar tudo certo.

Padrão

Um comentário sobre “2020: surtos, verbos e contradições

  1. Marina disse:

    2020 foi daqueles anos ‘milestone’. A gente pensou que com o final dele seria uma grande virada, mas agora ao final de 2021 começo e entender que como diria Lulu Santos ‘ainda vai levar um tempo, pra fechar o que feriu por dentro’. Falta entender tanta coisa, e nisso de administrar o que ainda não passou com o que está acontecendo e está por vir é coisa pra nível hard, derrotar chefão do video game para continuar nas referências anos 1990.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s