Proteção de elevador

Quem já morou em prédio, já usou, ou pelo menos já ouviu falar da tal da proteção de elevador. Para quem não conhece, ela é uma simples capa que serve para forrar a parte interna e assim evitar danos ao mesmo em uma situação de mudança, em que é necessário transportar muitas coisas por ele. O que eu não tinha percebido, até então, é que ela representa um rito de passagem, muito maior do que a sua finalidade original.

A gente costuma usar quando está chegando e quando está partindo. É um mix de muitos sentimentos que por vezes são iguais, indiferente de qual desses momentos seja o seu.

Para quem passa a ingressar o condomínio, pode ser uma fuga, uma oportunidade de recomeçar. Tudo é uma fonte de novidades: novos vizinhos, novas regras, um novo emprego, um novo amor. Toda vez que eu vejo que a proteção foi colocada, fico com muita vontade de esperar essa nova pessoa aparecer para recebe-la com um grande abraço e os meus mais sinceros desejos de boas-vindas. Até já quis fazer como nos filmes que os novos vizinhos são recebidos com pães e bolos caseiros, mas acho que aí já seria um pouco demais. Eu acharia o máximo, e confesso que ainda tenho esperança de que um dia isso ainda aconteça. Na maioria das vezes, a chegada costuma ser carregada, além de toda a mudança, é de expectativas de que tudo dê certo e que seja um lugar legal para se morar.

Para quem está partindo, é o momento de ver tudo o que você conquistou e tentar fazer tudo aquilo caber em um caminhão. É o fechamento de um capítulo que pode ter sido muito bom, como pode ser novamente uma fuga, uma oportunidade para recomeçar. É carregar, além da mudança, as boas lembranças e momentos alegres que você viveu ali. É ter a oportunidade de deixar aqueles tristes trancados lá, ou jogá-los fora, como aquelas coisas que você guardou desnecessariamente.

A proteção de elevador, se a gente reparar bem, é para proteger o que fica dentro e não ele em si. Funciona igual ao nosso coração. Tudo aquilo que a gente já passou serve para forrar o que temos de mais precioso. Para quem tá chegando, é a oportunidade para cicatrizar, ter possibilidades, recomeçar. Para quem tá partindo, é a oportunidade de fugir, lembrar, jogar fora o que virou tralha.

Reconhecer quando está na hora de coloca-la ou retira-la é mais um processo de mudança que leva tempo. Não precisa se apressar, o único síndico e morador desse prédio é você, então vai aos pouquinhos que tudo se ajeita.

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